Não governei

Não governei o meu sono
Nem a manhã
Que passou alheia a mim
Sem pedir opinião

Do mesmo modo driblei a tarde
E ela riu da palavra que usei
A noite trouxe os fantasmas
Por puro gosto que tem
De assombrar

Não governei os meus filhos
Nem os meus amigos
Nem ninguém
Sem o menor controle
A literatura escoou
Para algum bueiro

Meu trabalho eu só fiz torcer
Para não me trazer imprevistos
Não governei o governo
Por um segundo sequer
E mesmo meu corpo: sabe-se lá
O que andam fazendo minhas células

Há anos não dou corda num relógio
E ainda assim sinto culpa
Por tudo
Mas não fui eu

Dizem que o tempo não existe
E no fundo eu sei
Que só existe o tempo.



Adriane Garcia

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